quinta-feira, 23 de maio de 2013


A negação da totalidade




A Tanatologia, ao estudar sobre a morte e as perdas, nos trás a grande lição da negação. A negação é a primeira fase do processo de luto. Na negação, resistimos ao que acontece, resistimos à ideia de que somos nós passamos por esta perda, por este luto. Deve ser elaborada e superada, passando pela raiva, barganha, depressão, até a fase da aceitação, para que enfim possamos seguir a vida. No entanto, o que percebi é que vivemos em uma sociedade que não nos prepara para lidar com perdas. Negamos a dor, negamos a morte, negamos a vida. E assim negamos a totalidade do ser, que passa a habitar em nosso inconsciente.

Negamos a nós mesmos, negamos a pior parte de nós, a nossa sombra psicológica. Os outros? Os outros são mentirosos, os outros são covardes, os outros são desonestos, os outros nos enganam, os outros são traidores, os outros são mentirosos. Negamos que somos mentirosos, ou traidores, ou covardes, ou desonestos em algum nível. Negamos uma parte de nós, e, assim, projetamos nossas sombras nos que estão à nossa volta. Negamos o aqui e agora, evitamos contatos sociais mais profundos pelo medo, ou rancor, ou pela mágoa, o que consiste na negação da diferença que o outro representa. Negamos tudo o que é diferente de nós, de nosso ego, de nossas identificações, por medo de nos abrir para o diferente, por medo de crescimento, por medo de mudanças.


O pior é que negamos também a nossa luz. Dedicando ela a apenas os grandes seres que uma vez por século passariam pela terra. Nós não podemos lutar, somente os grandes homens podem. Quem sou eu? Apenas um humano comum, um grãozinho de areia entre milhões de galáxias. Não podemos transformar a nossa realidade, somente os gigantes do passado é que puderem. A culpa é do governador, dos políticos, das igrejas, do time que o outro torce, do egoísmo dos outros. É claro que eu nunca sou aquela pessoa egoísta que eu secretamente pensaria ser. É claro que eu sou a vítima, meus problemas se resolveriam se ele mudasse, se ela mudasse, se eles fizessem isso ou aquilo, se os outros mudassem. 


E também toda a nossa criatividade é projetada para fora de nós. Somente os artistas, somente os jogadores do meu time, somente os lideres religiosos ou políticos poderiam me apresentar a salvação. A mim, resta assistir ao jogo, a novela, o big isso, a casa daquilo, as noticias. E vou para mais um show, para mais uma festa, que eu quero é curtir a vida. Toda nossa luz é jogada na lata do lixo, esperando que de um alto imaginário desça uma mágica salvação.



Os sábios, mestres da espiritualidade, se é que ainda entre nós eles vivem, parece que resolveram fazer silêncio. Eles estão de luto, pela nossa insistente escolha: a de permanecer inconscientes, delegando a responsabilidade de nossas vidas, de nossa felicidade, de nossa realização ao outro. E assim permanecemos num estado de infância psicológica, como nos contos de princesas adormecidas, esperando até que o príncipe venha nos salvar. Eles esperam o nosso despertar para voltar a nos ensinar.

Devemos nos dar conta de que a nós cabe a responsabilidade por nossas vidas, por nossas escolhas. Sou Eu o único responsável pela MUDANÇA em minha vida! É preciso curar os traumas do passado para viver o aqui e agora. Abandonar a parte de nós que nos convence a correr do passado com medo da dor e a correr para um futuro de promessas imaginárias, porém falsas. É preciso viver o presente. Quando isto é doloroso, trazendo ansiedade, medos, vergonha, depressão, há algo que precisa ser trabalhado e curado. Alguma perda, algum luto, alguma frustração que nos fixa em nossa consciência infantil. Talvez muitas.

Podemos atravessar a dor de viver e aceitar a maravilha de viver, mas para isso é preciso aceitar a dor e a maravilha de morrer. Pois morte e vida são uma totalidade, e não há transformação sem perdas. Morrer significa passar por perdas, a assim poder renascer. O caminho sábio está em aprender com a dor e seguir a vida, ao encontro de nosso templo da realização máxima. Precisamos aceitar o que nós somos, aceitar o que o outro é, aceitar o que a vida é, aceitar o que a morte é. Isso não parece nada fácil, mais parece o grande desafio, como a arte de manipular uma grande espada afiada. Assim, seguiremos pelo caminho mais difícil de todos: o caminho da simplicidade. Aceitar que o que é, simplesmente é. Aceitar a totalidade. Assim caminhamos para nossa mudança, para nossa transformação, para nossa realização.




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