domingo, 21 de outubro de 2012


O ZÉ-NINGUÉM E O SER HUMANO PLENAMENTE VIVO



Diante da crise civilizacional em que vivemos, respostas são necessárias para que possamos ampliar nossa visão do que é o ser humano e de como podemos fazer com que nossas vidas tenham sentido, como se pudéssemos pintar com cores e vibrações de níveis mais elevados de amor e de vida as vidas cinzentas, aprisionadas pelos medos e pelos caminhos tradicionais sob as leis do consumismo e da moralidade punitiva que faz as vidas humanas se apequenarem em subvidas acinzentadas, uma verdadeira morte em vida.

Em 1947 uma obra de profundo significado para a experiência humana foi enviada para a publicação. No prefácio de seu livro “Escuta, Zé ninguém”, foram apontadas as condições que levaram Wilhelm Reich a fazer este apelo humano para que nós possamos buscar a nossa cura deste grande mal que é a ausência de sentido de nossas vidas.

Ao longo dos anos, Reich observou, primeiramente com humor, depois com horror, o Zé Ninguém, assim chamado homem comum a viver uma vida comum e vazia de significado, adoecida, e que, em seu sofrimento, fere seus amigos e reforça seus inimigos, em sua cegueira costuma cair no totalitarismo quando detém o poder político seja de esquerda seja de direita, ou nos fundamentalismos religiosos de quaisquer credos. O ser humano bom, que ama a vida, acredita que todos são igualmente bons, corre perigo em uma sociedade adoecida, onde predominam os Zés Ninguém. O Zé Ninguém, infectado pela virulência de seu sofrimento e vazio, pela peste emocional que contagiou nossa sociedade, acredita que todos mentem, roubam, enganam e buscam desenfreadamente o poder, o que justificaria sua iniquidade.

O apelo de Reich é para que nós possamos abraçar a nossa força vital, Orgone, que se manifesta por meio do amor, do trabalho e do conhecimento. Seu desejo era o de que os educadores e os terapeutas verdadeiramente vivos pudessem ser fieis à força vital que reside nas crianças e nos pacientes. Ele acreditava profundamente que há em nós enterrados imensos tesouros de energia vital, prontos a serem retirados e para que os utilizássemos em nossas buscas pela realização. Seu trabalho é um canto de amor à verdadeira vida e à profundidade humana.

Zé Ninguém
Ser Humano Plenamente Vivo
Valoriza inimigos e mata amigos
Assume responsabilidades
Utiliza mal e cruelmente o poder
Preservação da vida
Obsessão por autoridade
Proteção das crianças
Exaltam o estado (fascistas)
Exaltam a justiça
Adoecido pela peste emocional
Usa tesouros ocultos para realização
Acredita que todos mentem enganam e tem sede de poder
Age com bondade, generosidade e sem suspeitas
Encouraçado, tem medo da vida
Resistência à peste emocional e entusiasmo pela vida
Quadro comparativo das características do Zé ninguém (Anomia ou Heteronomia) e do Humano Verdadeiramente Vivo (Autonomia).




Descaminhos do Zé Ninguém e sua vida sem sentido




A ilusória liberdade


O primeiro aspecto que o Zé ninguém desconhece de si mesmo é o caráter histórico e, portanto, construído, de todas as suas ações, desde sua apatia e sua ausência de sentido na vida até seu modo alienado de trabalhar apenas ou em grande parte para consumir objetos que estão para além de suas verdadeiras necessidades. E, ainda quando tem certo nível de consciência política, utiliza a política como mais uma forma de dominação humana, em vez de utilizá-la como instrumento de libertação, o que faz Reich apontar que tanto há Zés Ninguém de esquerda como de direita.

“Eles o chamam de Zé-Ninguém ou Homem Comum. Dizem que esta é a alvorada do seu tempo, a “Era do Homem Comum”. Não é você quem diz isso, Zé-ninguém. São eles, os vice-presidentes de grandes nações, os lideres operários e os filhos arrependidos da burguesia, os estadistas e os filósofos. Eles lhe dão o futuro, mas não fazem perguntas Sobre o seu passado. Você herdou um passado terrível. Sua herança é um diamante em brasa em suas mãos. É isso que eu preciso lhe dizer.”


O Zé Ninguém é aquele ser humano desumanizado, preso em suas máscaras, que acredita no discurso midiático de que é livre, pois pode consumir o que quer, acredita que pode trabalhar onde quer e fazer o que quiser de sua vida. Com este tipo de discurso, o Zé Ninguém não consegue perceber a principal ausência de liberdade que é a falta em relação ao conhecimento de si mesmo, o autoconhecimento.

“Um médico, um sapateiro, um mecânico ou um educador terá de conhecer suas deficiências se quiser realizar seu trabalho e com ele ganhar a vida. Já há algumas décadas você vem assumindo o controle, em todas as partes do mundo. O futuro da espécie humana dependerá dos seus pensamentos e atos. No entanto, seus mestres e senhores não lhe dizem como você realmente pensa e o que você realmente é, ninguém ousa confrontá-lo com a única verdade que poderia fazer de você o senhor inabalável do seu destino. Você é “livre” apenas sob um aspecto: livre da autocrítica que poderia ajudá-lo a governar sua própria vida. Nunca o ouvi queixar-se: ‘Vocês me exaltam como futuro senhor de mim mesmo e do meu mundo. Mas não me dizem como um homem se torna senhor de si mesmo e não me dizem o que há de errado comigo, o que há de errado com o que penso e faço’.”


O Zé ninguém é escravo, e não livre como acredita ser. Além disso, ele não sabe quando é um Zé Ninguém, enquanto que os grandes seres humanos sabem quando são pequenos, mas estão sempre lutando para ir além dos seus limites, estão sempre fazendo algo grande em significado. O Zé Ninguém, por sua vez, não sabe de sua estreiteza de pensamentos, e tem medo de saber. Esconde-se em máscaras de grandeza e poder que verdadeiramente não possui, a não ser nesta superficialidade, o que caracteriza suas conversas, os meios de comunicação, seu grau de (ausência de) reflexão sobre a vida.



O trabalho improdutivo


É muito claro que, no ambiente de trabalho, o Zé Ninguém é aquele que não quer assumir responsabilidades, mas odeia o patrão e odeia o trabalho por que no fundo odeia a si mesmo, não tem autoestima e não tem consciência do seu valor para a vida, por que não foi ensinado a amar a vida.  O Zé Ninguém tem medo da vida, e, portanto, foge do amor. O Zé Ninguém trabalha por que o disseram que tem de trabalhar, mas o faz apenas para ganhar sua miséria ao final do mês para comprara as coisas de que não precisa, as quais ele vê na televisão ou, mais atualmente, na internet. A ausência de sentido de sua vida, sua peste emocional, infecta também, portanto, o ambiente de trabalho, onde ele produz cada vez menos para si e para o mundo. O mesmo ocorre quando o Zé Ninguém frequenta cursos e universidades buscando como único objetivo ganhar diplomas que certifiquem externamente que ele é alguma coisa, já que internamente ele não tem nada para mostras. Assim, temos levas de estudantes em universidades e em cursos que estão ali mas sua presença é morta e sua participação é vazia, estando eles mais preocupados com as festas que visitarão em sua superficialidade consumista a cada final de semana.

Nossa sociedade nos ensina que devemos estudar para trabalhar e trabalhar para ganhar dinheiro. Poucos, no entanto, são os de nós que vão trabalhar ou estudar com aquilo que verdadeiramente amam e se interessam. Os que fazem escolhas baseadas neste amor vocacional estão sempre buscando crescer como seres humanos, sempre buscando ser plenamente vivos, enquanto que o Zé Ninguém não entende como alguém possa gostar de trabalhar ou estudar. Daí, o Zé Ninguém aqui no nosso contexto cultural, aqui no Brasil, deseja, em significativa parte das vezes, passar num concurso público que o pague aquilo que supostamente ele precisa, para depois ele nunca mais ter de trabalhar ou estudar.

“Eu digo: Só você mesmo pode ser seu libertador! A esta altura, hesito. Afirmo lutar pela pureza e pela verdade. Agora, porém, depois de decidir contar-lhe a verdade sobre você mesmo, hesito, por temor a você e à sua atitude para com a verdade. A verdade é perigosa quando diz respeito a você. A verdade pode ser saudável, mas qualquer turba pode se apoderar dela. Se não fosse assim, você não estaria na situação em que está. Minha razão diz: Fale a verdade a qualquer preço. O zé-ninguém em mim diz: Seria tolice pôr-se à mercê do zé-ninguém. O zé-ninguém não quer ouvir a verdade sobre si mesmo. Não quer a enorme responsabilidade que lhe caiu sobre os ombros, que é dele, goste ou não. Quer continuar sendo um zé-ninguém, ou se tornar um grande zé-ninguém. Quer enriquecer, tornar-se líder de partido, chefe da associação dos veteranos de guerras internacionais ou secretário de uma sociedade pelo aprimoramento moral. Não quer, porém, assumir a responsabilidade pelo seu trabalho, pelo abastecimento alimentar, pela construção, mineração, transportes, educação, pesquisa científica, administração ou seja lá o que for.”




Buscar a cura


O Zé Ninguém está muito doente, e não o sabe. A culpa de estar doente não é dele, mas o Zé ninguém tem a responsabilidade de buscar sua cura. Cada um de nós tem a responsabilidade de buscar a cura, pois o Zé Ninguém habita o interior de cada um de nós. Reich teme, pois aponta que o futuro da humanidade está nas mãos do Zé Ninguém. No entanto, o Zé apoia diretamente seus opressores, do mesmo modo como aconteceu também aqui, no Brasil, onde os Zés Ninguém apoiaram uma ditadura militar sanguinária em nome da suposta ordem e segurança nacional. Os seres humanos verdadeiramente grandes, que buscam a liberdade e o amor verdadeiramente, são estranhos à natureza do Zé Ninguém, o que o impede de distingui-los e sempre optar pelos seus opressores, que antes eram de classes dominantes, mas que hoje também são da mesma classe, tão Zés Ninguém como o Zé Ninguém que votou neles. O grande ser humano, por sua vez, é rotulado de criminoso em potencial ou de louco, doente ou transtornado mentalmente, como ainda acontece e com mais intensidade no momento atual em que vivemos, de profunda medicalização da sociedade. A própria espiritualidade é medicada e tratada com supressão, sendo interpretada quando não de modo subversivo ou com ironia crítica e vazia, sem argumentos, pelo menos como um caminho para loucos ou pessoas excêntricas, mas nada que um ser humano comum tenha com o que se meter. Devemos deixar de querer ser seres humanos comuns e normais em uma sociedade adoecida, devemos viver nossa loucura criativa e nossa busca no interior de nós mesmos.

“Por isso, porque ele é diferente de você, você o chama de “gênio” ou de “doido”. Ele, por sua vez, está perfeitamente disposto a admitir que não é nenhum gênio, mas apenas uma criatura viva. Você o chama de a-social porque ele prefere ficar só com seus pensamentos a ouvir a tagarelice vazia dos seus encontros sociais. Você afirma que ele é maluco, por que gasta dinheiro em pesquisa científica em vez de investi-lo, como você, em ações. Na sua degradação infinita, zé-ninguém, você ousa chamar um homem simples e franco de “anormal”. Compara-o consigo mesmo, com seus medíocres padrões de normalidade e o considera deficiente. Você não percebe, zé-ninguém, você se recusa a reconhecer que está afastando esse homem, que o ama e que só quer ajudá-lo, de toda vida social porque tanto no salão de festas quanto nos bares você a tornou insuportável. Quem o transformou no que ele é hoje depois de décadas de sofrimento desesperado? Foi você, com sua falta de escrúpulos, sua mentalidade tacanha, seu raciocínio deturpado e suas “verdades eternas”, que não conseguem sobreviver a dez anos de desenvolvimento social.”


O Zé-Ninguém é aquela pessoa que, atormentada por sua impotência sexual, não consegue trabalhar bem durante o dia, somente pensando em sexo. Mas, quando o trabalho de Reich aponta para uma economia sexual, uma possibilidade de cura para o problema do Zé-Ninguém, ele o ataca em nome da moralidade pública e diz que sexo não é tudo nesta vida. “Quando, depois de anos de trabalho árduo, o pesquisador afinal chega a entender por que você é incapaz de dar à sua mulher felicidade no amor, você vai e diz que ele é um depravado sexual Você diz isso porque você é um depravado sexual e, portanto, incapaz de amar, mas isso nunca chega a lhe ocorrer.”

Assim, os companheiros continuam se separando por somente viver o sexo sem sentido e por não saberem amar, as crianças continuam adoecendo e empalidecendo por falta da nutrição do amor que não recebem dos pais nem de ninguém, e tudo isto afeta, além das outras esferas da vida, a esfera do trabalho, que é vivida na completa dissociação, sem amor, sem inteireza, sem vida. O Zé-Ninguém não compreende, mas é no trabalho realizado com verdadeiro amor que o grande homem encontra a força vital, geradora de valores verdadeiros, de vida verdadeira, mas o Zé-Ninguém esmaga a liberdade da verdade e prefere a falsa segurança de suas ilusões. Reich comenta, acidamente: “Agora você compreende por que a felicidade lhe escapa? A felicidade quer que se trabalhe para alcançá-la e quer ser conquistada. Você, porém, apenas deseja devorar a felicidade. Ela foge por não querer ser devorada”.




Cultivar a Verdadeira Vida


Quando o pesquisador inicia sua pesquisa, a qual não tem lucros e resultados garantidos, o Zé-Ninguém o esquece, na melhor das hipóteses, ou, na pior, o atrapalha, o chama de louco ou psicótico, ainda que não saiba o que é psicose, o critica por ameaçar a moralidade ou o saber instituído, o declara como delinquente em potencial ou pervertido sexual, fazendo de tudo para o desmerecer e para que ele decline em seu propósito. Mas quando a descoberta científica finalmente sai no jornal, o Zé-Ninguém a proclama grande descoberta, ainda que não a entenda. E o cientista, motivado pela vitalidade que reside em seu interior à qual ele teve de batalhar para permanecer como uma chama viva, agora passa a ser chamado de gênio, pelos mesmos Zés Ninguém que o chamaram louco, e que também não sabem o que significa ser um gênio.

O Zé Ninguém não é e não quer ser capaz de se desenvolver, de ter uma nova ideia que possa contribuir verdadeiramente com o mundo. O Zé Ninguém somente deseja devorar e consumir tudo a sua volta, inclusive as novas descobertas dos que ele proclama gênio. É incapaz, contudo, de dar, de entregar-se, de amar, e, fundamentado em seu vazio interior apenas busca entupir-se de comida, dinheiro, sexo, conhecimento ou até mesmo trabalho, buscando nestas suas ilusões alguma plenitude idealizada que sempre escapa, que sempre exige mais, que sempre consome mais. Mas a verdade, e o risco que ela tem de despertar no Zé-Ninguém o amor, essa não é importante, e, portanto, ele foge da verdade e do amor.

Será, por fim, que o Zé-Ninguém é um perfeito inútil, que não tem valor e não tem jeito? Será que sempre escolherá a morte em vida em vez da verdadeira vida? Será que o Zé-Ninguém preferirá sempre o poder ao invés de escolher o amor? Reich acredita que não, que ele pode ser grande e pode aprender a amar, que pode curar-se e responsabilizar-se para enfim viver a verdadeira vida. É por isto que ele escreve este apelo. Amor, trabalho e conhecimento são as fontes da verdadeira força vital, que deverá ser cultivada em nós.


“Tudo o que fiz foi desnudar o zé-ninguém que existe em você, que vem desgraçando sua vida há milhares de anos. Você é grande, zé-ninguém, quando não é mesquinho e pequeno. Sua grandeza, zé-ninguém, é a única esperança que nos resta. Você é grande quando se dedica amorosamente ao seu oficio, quando tem prazer em entalhar, construir e pintar; em semear e colher; no céu azul, nos cervos e no orvalho da manhã, na música e na dança; no crescimento dos seus filhos e no belo corpo da sua mulher ou do seu marido; quando vai ao planetário estudar as estrelas, à biblioteca ler o que outros homens e mulheres pensaram acerca da vida. Você é grande quando seu neto se senta no seu colo e você lhe fala de tempos remotos e examina o futuro incerto com sua doce curiosidade infantil. Você é grande, mãe, quando embala seu bebê para ele dormir; quando, com lágrimas nos olhos, você ora com fervor pela felicidade futura dele; e quando, hora após hora, ano após ano, você constrói essa felicidade no seu filho. Você é grande, zé-ninguém, quando canta as canções folclóricas, boas e calorosas, ou quando dança as velhas danças ao som do acordeão, pois as canções folclóricas fazem bem à alma e são as mesmas no mundo inteiro.”


Concluímos com as palavras de Reich sempre encontradas ao início de suas obras, uma ode de amor à verdadeira força vital, a qual devemos descobrir dentro de nós em nossas caminhadas: “Amor, trabalho e conhecimento são as fontes de nossa vida. Deveriam também governá-la”. 

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