DIÁLOGO ENTRE A PSICOLOGIA E A ESPIRITUALIDADE - PARTE 02
ESPIRITUALIDADE E RELIGIÃO
Em nossa sociedade, após a Revolução Industrial, foi sendo construída
uma visão de mundo secular, no sentido de haver, cada vez mais, uma
dessacralização do mundo. Nesse contexto, a ciência contribuiu
significativamente, apontando a possibilidade de podermos dar um sentido à vida
humana para além das respostas que nos foram dadas pelos sistemas religiosos
dominantes. A razão foi sendo vista como a única via para dar respostas sobre o
que é a verdade, o homem e a vida.
Na contemporaneidade, entretanto, há um movimento no sentido de
reencantamento do mundo, e um novo sentido para a espiritualidade foi sendo
construído, separado didaticamente do conceito de religião. Usamos então
diferentemente os termos, sendo religião um termo empregado para o fenômeno de
uma comunidade que se organiza em torno de um conjunto de dogmas e símbolos.
Espiritualidade, por seu turno, é utilizada para uma experiência de conexão com
o universo para além das crenças religiosas, baseada na experiência direta com
aspectos não usuais de realidade. Enquanto que na religião um coletivo se une e
se organiza em torno da fé, na espiritualidade, jornada solitária, cada
indivíduo busca por si mesmo o significado da existência.
Segundo Grof, o principal obstáculo do desenvolvimento da
espiritualidade são as raízes da Psicologia e da Psiquiatria de época, ainda
denominadas na tradição cientifica de caráter materialista. Mas Grof coloca que
não existe qualquer prova cientifica de que a espiritualidade não existe, e diz
que, com seus estudos holotrópicos, esta dimensão de experiência humana aparece
com relevante frequência. Segundo ele:
“A psicologia
transpessoal estuda e respeita com seriedade todo o espectro da experiência
humana, inclusive os estados holotrópicos e todos os domínios da psique –
biográfico, perinatal e transpessoal. Como resultado, ela tem uma maior
sensibilidade cultural e oferece uma forma universal de compreensão da psique,
aplicável a qualquer grupo humano e período histórico. Ela também honra as
dimensões espirituais da existência e reconhece a profunda necessidade humana
de ter experiências transcendentais. Nesse contexto, a pesquisa espiritual
parece ser uma atividade humana compreensível e legítima.” (Grof, 2000, p. 211).
Neste sentido, apontamos que a ciência se constitui como uma poderosa
ferramenta para nos fornecer meios de compreender e transformar o mundo em que
vivemos e que a espiritualidade é uma indispensável dimensão que para nós serve
como fonte de significado para a vida. É imperativo, portanto, um casamento
entre as duas, e compete a cada um de nós contribuirmos para que esta via, este
caminho seja legitimado enquanto possibilidade de resposta para a experiência
humana.
ESTADOS HOLOTRÓPICOS DE CONSCIÊNCIA
O termo holotrópico foi cunhado por Stanislav Grof e significa uma
orientação ou um direcionamento para a totalidade ou inteireza (do grego holos = totalidade/inteireza e trepein = indo em direção a algo). Ele
cunhou este termo com base em seus estudos sobre estados ampliados de
consciência, primeiramente tendo como método o estudo do efeito de drogas
psicotrópicas que causariam ampliações de consciência e posteriormente a partir
dos outros métodos desenvolvidos pelos seus estudos e de muitos outros
pesquisadores, como é o caso da respiração holotrópica e da terapia holotrópica.
Segundo Grof, nos estudos holotrópicos há uma profunda transformação
qualitativa de consciência. Ele pontua:
“Permanecemos
completamente orientados em termos de espaço e tempo e não perdemos totalmente
o contato com a realidade diária. Ao mesmo tempo, nosso campo de consciência é
invadido por conteúdos de outras dimensões da existência, que podem ser muito
intensos e até avassaladores. Assim, experienciamos simultaneamente duas
realidades muito diferentes, “temos cada um dos pés em um mundo diferente”.”
(Grof, 2000, p.18).
Grof, descrevendo ainda os estudos holotrópicos de consciência, pontua
que, apesar de o intelecto não ficar debilitado, ele passa a operar de um modo
diferente do cotidiano, o que poderíamos sintetizar através da expressão
abertura. Há transformações em todas as áreas sensoriais, no que diz respeito à
percepção, há uma extensão das emoções para muito além da experiência diária e
há, ainda, a possibilidade de experimentar fenômenos como sequências de morte e
renascimento psicológico, bem como uma ampla gama de fenômenos transpessoais
como, por exemplo, a união com outras pessoas, com a natureza, com Deus e com o
Universo.
Segundo Grof, as atuais tendências em Psiquiatria e em psicologia tendem
a considerar patológicos os estados ampliados de consciência. O estudo dos
estados holotrópicos poderia, então, contribuir para uma revisão dos conceitos
nestas áreas da ciência, bem como na forma como vemos o psiquismo. Haveria uma
drástica modificação da compreensão de como percebemos as dimensões da psique
humana a partir de uma nova cartografia que incluiria os níveis perinatal,
pós-natal e transpessoal, o que abordaremos em um próximo momento. Com isso,
teríamos de rever também a maneira como enxergamos as desordens emocionais e
psicossomáticas, assim como os mecanismos terapêuticos e a amplitude de sua
eficácia. As profundas modificações não parariam no que colocamos, podendo
ainda atingir a maneira de como vemos o universo, a consciência e o homem,
trazendo para ele estratégias da psicoterapia e da auto-exploração que
vislumbrariam mobilizar a mais profunda inteligência interior do ser humano,
que serviria como guia para o processo de cura e transformação.
CARTOGRAFIA DA CONSCIÊNCIA DE GROF
Antes dos estudos de Stanislav Grof, a estrutura do psiquismo foi
estudada e postulada de maneiras diferentes por diversos autores. Depois dos
estudos psicodélicos e das experiências com os estados holotrópicos de
consciência, porém, a estrutura até então elaborada não seria suficiente para
abranger a diversidade de experiências, de fenômenos e de resultados
encontrados.
Foi a partir da limitação da Psicologia de sua época que Grof partiu,
chamando a psique até então conhecida de domínio biográfico, que abrange,
segundo ele, a biografia pós-natal e o inconsciente individual Freudiano. A
ele, o estudioso adicionou o domínio perinatal e o domínio transpessoal, o
primeiro relacionado ao trauma do parto biológico e às experiências do período
de gestação e o último relacionado às regiões mitológicas, seres arquetípicos,
experiências ancestrais, cósmicas, entre outros.
O domínio biográfico do psiquismo é constituído pelas memórias da vida
desde a infância até o momento que está sendo vivenciado. Porém, Grof defende
haver diferenças entre certos aspectos de dinâmica do nível biográfico e
características apontadas pelos autores que utilizaram apenas a via da
psicoterapia verbal.
A primeira diferença que Grof aponta é que o indivíduo não apenas
relembra as experiências emocionais significativas ou as reconstroi no processo
psicoterapêutico, mas sim experimenta as emoções originais, as sensações
físicas e até mesmo as percepções sensoriais em uma regressão total. A segunda
diferença é que, segundo Grof, temos que reviver e integrar traumas cuja
natureza principal é a física, como por exemplo, as injúrias associadas à
asfixia. O reviver de memórias traumáticas, que surgem espontaneamente, pode
levar a amplas consequências de caráter terapêutico.
Grof descobriu que memórias traumáticas são guardadas no inconsciente na
forma de complexas constelações dinâmicas, com carga emocional, às quais ele
nomeou COEX (condensed experience),
sistemas de experiências condensadas. Uma experiência holotrópica, “quando um
sistema COEX está emergindo à consciência, ele assume uma função governadora e
determina a natureza e o conteúdo de experiência.’’ (Grof, 2000, p.40). Os
estudos holotrópicos, aponta ainda Grof, têm uma configuração semelhante a um
‘’radar interno’’, que vão trazendo à consciência os conteúdos com dinâmica de
maior relevância e com mais disponibilidade para processamento, poupando o
terapeuta da decisão, pois o material a ser trabalhado é escolhido como que
automaticamente, através de uma dinâmica própria da psique.
No domínio ao qual Grof chamou de perinatal encontramos, por sua vez,
experiências nas quais são misturadas as temáticas de nascimento e morte. “Elas
envolvem uma sensação de terrível confinamento, ameaçando a vida, e uma
desesperada e determinada luta para nos livrar e sobreviver.’’ (Grof, 2000,
p.43). Estas experiências são consteladas em quatro matrizes perinatais
básicas, que são dinâmicas, ricas e complexas. Grof aponta que o domínio
perinatal e suas matrizes são um importante portal para o inconsciente
coletivo, no sentido junguiano. Além disso, temos que a “experiência de
confrontar-se com nascimento e morte parece resultar automaticamente em
abertura espiritual e descoberta das dimensões místicas da psique e da
existência.’’ (Grof, 2000, p.47).
O último domínio da psique na cartografia de Stanislav Grof é por ele
denominado de transpessoal, que pode significar uma transcendência do nível
pessoal para atingir níveis de consciência para além do pessoa. “O espectro de
experiências transpessoais é riquíssimo e inclui fenômenos de vários e diferentes
níveis de consciência.’’ (Grof, 2000, p.70).
Dentre as experiências transpessoais podemos citar, por exemplo, a união
com a vida e toda a criação, as experiências com seres e mundos
extraterrestres, as experiências de encarnações anteriores, os fenômenos
espíritas e mediúnicos, a compreensão intuitiva dos símbolos universais, as
experiências mitológicas e arquetípicas, dentre muitas outras. (Grof, 2000,
p.71).
“A pesquisa dos estados
holotrópicos revela um notável paradoxo concernente à natureza dos seres
humanos. Ela mostra claramente que, de uma forma misteriosa e inexplicável,
cada um de nós contém a informação sobre todo o universo e sobre toda a
existência, tem o potencial de acessar e experienciar todas as suas partes e,
em certo sentido, é todo o entrelaçamento cósmico, ao mesmo tempo em que somos
apenas uma infinitésima parte dele, uma entidade biológica insignificante e
separada. A nova cartografia reflete esse fato e retrata a psique humana
individual como essencialmente compatível com todo o cosmo e com a totalidade
da existência.’’ (Grof, 2000, p.80).
Podemos concluir com a observação de Grof acerca de uma doutrina básica
de alguns sistemas exotéricos segundo a qual cada um de nós é um microcosmo que
contém, de modo misterioso, todo o universo, como foi expresso na tábua de
esmeraldas: O que está acima é como o que está abaixo. O que está fora é como o
que está dentro.
NORMOSE – PATOLOGIA DA NORMALIDADE
Pierre Weil define normose como “um conjunto de normas, conceitos,
valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por
consenso ou pela maioria em determinada sociedade e que provocam sofrimento,
doença e morte.” (Weil, 2003, p. 22). Podemos dizer, então, que ao falar de
normose estamos lidando com um estado patológico onde são seguidas as normas
introjetadas pela sociedade mesmo que elas conduzam ao sofrimento e à
enfermidade, constituindo, portanto, uma normalidade doentia.
Quando há um estabelecimento de um hábito de pensar, sentir ou agir;
quando há um comportamento executado por ser aceito por consenso social; quando
há nesse comportamento uma natureza patogênica ou letal e se ele tiver gênese
pessoal ou coletiva, mediante processo introjetivo, temos caracterizado um
comportamento normótico.
Jean-Yves Leloup pontua que a normose é capaz de gerar sofrimento, como
ocorre na neurose e na psicose. “É ela que nos impede de sermos realmente nós
mesmos.” (Leloup apud Weil, 2003, p. 25). Ele agrega, então, à discussão, dois
novos conceitos, o de pléroma,
definido como desejo do Aberto, total presença ou plenitude, e o de kénosis, medo do Aberto, total
vacuidade, aniquilamento ou dissolução do ego. A existência do homem, assim,
desenvolver-se-ia por meio dos desejos e dos medos, e as transformações
ocorreriam quando o desejo de pléroma
vence o medo de kénosis. Em nosso
processo de transformação, devemos integrar os vários níveis de consciência e,
a cada passagem, a cada entrada em um novo estado de consciência,
encontramo-nos diante do desejo de pléroma
e do medo de kénosis.
Se a resistência diante do Aberto se manifestar na forma de terror,
segundo Leloup, temos caracterizada a psicose. Se ela tomar forma de ansiedade
e angústia diante do Aberto, temos a neurose. Se tivermos medo diante do
Aberto, temos a normose. Na normose, é necessário ser como os outros, agradar,
e não há espaço para o próprio desejo, para o próprio ser. É na normose que o
ter ultrapassa o ser, e a aparência torna-se imperativo, em detrimento da
essência. Leloup ressalta, porém, que se não cumprirmos o que nos pede nossa
formação criativa, sem acessarmos nosso próprio pensar, nosso próprio desejo,
nosso próprio criar, adoecemos, pois o eu sucumbe diante do conformismo.
Leloup aprecia, então, aspectos do que ele define como chamado do Self, que podemos sentir no interior de
cada um de nós. Ele pontua que “existe algo maior do que nós. Algo mais
inteligente e mais amoroso do que nós” (Weil, 2003, p. 31), que seria o Self. Podemos, porém, retroceder diante
da própria grandeza, da dimensão espiritual do Ser, o que é chamado complexo de
Jonas. Temos o dever de nos libertar destes medos para escutar nosso desejo
mais íntimo, seguir nosso caminho passando de um plano de consciência para
outro, rumo à identidade do puro EU SOU, à união com o Ser que habita dentro de
nós.
Podemos pontuar, finalmente, que amplas transformações no plano social
poderiam ser vislumbradas com a perspectiva da cura da normose. Às instituições
sociais de controle, seja de caráter religioso seja político, nos questionamos
se apoiariam a promoção de um pensamento que nos torna livres de suas regras
para sermos o que realmente somos. Ao plano da psicoterapia, nós arguimos como
seria possível potencializar as transformações da consciência de cada um no
sentido de realização destes íntimos desejos, destes chamados, promovendo a
cura, que seria como um direcionamento para a plenitude, para a pura
consciência do Ser. Como afirmara Jung, “somente aquilo que somos tem o poder
de curar-nos” (Jung, 2008, p.43).
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