quinta-feira, 26 de julho de 2012



DIÁLOGO ENTRE A PSICOLOGIA E A ESPIRITUALIDADE - PARTE 03
EMERGÊNCIA ESPIRITUAL

A expressão “emergência espiritual” foi cunhada por Christina e Stanislav Grof a partir de um jogo de palavras que têm por significado ao mesmo tempo crise e oportunidade, como no ideograma chinês, sendo que a compreensão aqui apontada faz referência à possibilidade de emergir, que Grof considera como elevação a um nível superior de funcionamento psicológico e de consciência espiritual. Acerca das crises espirituais, podemos citar diretamente Grof:
“Das crises psicoespirituais das quais se permite seguir seu curso natural podem resultar benefícios como melhor saúde psicossomática, maior prazer de viver, uma estratégia de vida mais recompensadora e uma ampliada visão de mundo que inclui a dimensão espiritual de existência. (...) Não é exagero dizer que a conclusão e a integração bem-sucedidas das crises espirituais podem levar o individuo a um nível superior de evolução da consciência.” (Grof, 2000, p.142).
Como exemplo de crises psicoespirituais, podemos citar as crises xamanísticas, onde há uma dolorosa iniciação que passa pela morte, ascensão a regiões celestes e o retorno enquanto xamã noviço; temos as experiências com vidas passadas, como memórias de encarnações anteriores; há as experiências de quase-morte, em que há experiências como a revisão da própria vida, às vezes há passagens por um túnel, o encontro com entidades queridas desencarnadas e com guias espirituais, etc.; experiências com seres extraterrestres, renovações psicológicas através do retorno ao centro, dentre outras possibilidades vivenciais.
A crise psicoespiritual pode ser disparada por diversos meios, como a exaustão física, uma experiência emocional traumática, experiências com substancias psicodélicas ou até em uma sessão de psicoterapia experiencial.
É muito importante, ainda, não cair no erro de patologizar estudos místicos ou glorificar estados psicóticos, o que nos faz atentar para o importante diagnóstico diferencial entre psicose e emergência espiritual. Podemos ter como ponto de partida um bom exame médico, que procure desequilíbrios de natureza orgânica que necessitem tratamento médico. Depois, um indicador importante é a atitude pessoal, sendo necessário à pessoa que vivencia uma situação de emergência espiritual o reconhecimento de que se trata de um processo interno, psíquico. Outro ótimo indicador é a articulação que a pessoa tem em relação à experiência, apresentando os conteúdos mais extraordinários de modo coerente e significativo.
Para o tratamento em uma situação de emergência espiritual devemos primeiramente reconhecer que esses estudos não são patológicos, mas sim resultados da dinâmica do psiquismo e, portanto, dotados de potenciais de cura e de transformação. Neste processo, inclusive, poderemos ter de enfrentar a morte e o renascimento espiritual, que, consoante cada cliente, pode dar-se através de um processo mais ativo ou mais resistente, mas é sempre fundamental a promoção de espaços e de pessoas capacitadas para ajudar no tratamento das crises espirituais e, neste sentido, a psicologia transpessoal pode fornecer uma base teórica para esse tipo de psicoterapia, com raízes numa perspectiva que vislumbre, legitime e acolha a espiritualidade.



CONCLUSÕES MAIS SIGNIFICATIVAS

Estudar temáticas como os estados ampliados de consciência, a emergência espiritual, as contribuições da espiritualidade para a Psicologia bem como os novos paradigmas acerca de como podemos ver o ser humano e de como podemos dar um significado para a vida, através de uma nova cosmovisão, são de alta relevância para nossa vida humana e para os estudos que marcam a formação do profissional em Psicologia, abrindo, para nós, um ou talvez muitos universos de possibilidades diferentes de como compreender e direcionar o tratamento do psiquismo humano.
A partir daqui, fazemos questão de ressaltar a completa interferência da subjetividade que nos constitui na exposição do mais significativo nestes estudos. Sob nosso ponto vista, o investimento na interface da Psicologia com a Espiritualidade é obra ousada, haja vista o atual pouco reconhecimento da academia sobre esta temática, grandiosa, pois estamos apenas começando a enveredar por estes caminhos que muito têm por ser construídos, porém repleta de beleza, de significado e de gratificação. Acreditamos que perspectivas como as de Abraham Maslow, Viktor Frankl, Carl Jung, Stanislav Grof, dentre muitos outros autores e precursores da “quarta força”, Psicologia Transpessoal, são de imperativa promoção e desenvolvimento para que possamos, em nossa sociedade dominada pelo consumismo, pela opressão do capital e pelos ditames de um materialismo vazio, defender, promover e construir uma nova visão, onde ciência e espiritualidade caminharão de mãos dadas.
Por mais que reconheçamos no materialismo e cientificismo modernos como uma possibilidade de relacionamento com a vida, devemos ressaltar que a ciência tem como objetivo promover o alívio do sofrimento humano no plano físico, o que em parte tem obtido, ao menos historicamente, muito sucesso. Porém, somente com a promoção de valores humanos que tenham por princípio e fim as qualidades do coração podemos aliviar o sofrimento no sentido psíquico, que, para nós, entrelaça-se com sofrimento espiritual.
Estudar a espiritualidade é dar um sentido para a morte e para a vida, é aprender a morrer e a viver, é aprender a transformar e transformar-se, renascendo como um ser cada vez mais preocupado em ajudar, cuidar, curar, libertar e iluminar outros seres humanos, fazendo com que cada um tome as rédeas de sua jornada de crescimento da consciência e de desenvolvimento e realização espiritual.
Em seu “Livro Tibetano do Viver e do Morrer”, Sogyal Rinpoche (1999), dentre muitas contribuições, propõe um modo de pensar o ser humano em sua totalidade, e conseguir a realização da natureza búdica da mente é compreender o universo, a mente e sua natureza, a vida e a morte. Ele nos convoca, então, para a jornada de realização da verdadeira natureza da mente, unindo sabedoria e compaixão a serviço de todo o mundo. E pensar a partir desta perspectiva de totalidade, para nós, significa vislumbra o ser humano como biológico, psicológico, social e espiritual, como corpo e alma, finitude e infinito.
O íntimo relacionamento entre ciência e espiritualidade, como aponta o Dalai Lama em seu “O universo em um átomo”, é fundamental para a promoção do bem-estar da vida humana, e ele desafia a cada um de nós a contribuir para que os laços entre as duas sejam de cada vez maior proximidade. Fazemos nossas suas palavras quando ele escreve:
“Meu apelo é que levemos nossa espiritualidade, toda a riqueza e a simples integridade de nossos valores humanos básicos, a influenciar o curso da ciência e da direção da tecnologia da sociedade humana. Em essência, a ciência e a espiritualidade, embora diferindo em suas abordagens, têm em comum um mesmo fim, que é o aperfeiçoamento da humanidade. Na sua melhor forma, a ciência é motivada por uma busca pelo conhecimento que nos ajude a nos levar para um maior florescimento e felicidade. Na linguagem budista, este tipo de ciência pode descrita como sabedoria fundamentada na e temperada pela compaixão. Da mesma forma, a espiritualidade é uma jornada humana até os nossos recursos internos, com a finalidade de entender quem somos no sentido mais profundo e de descobrir como viver de acordo com a melhor idéia possível. Isto, também, é a união da sabedoria e compaixão.” (Dalai Lama, 2006, p.198).

Concluímos então estes passos de um longo caminho ainda por seguir com a defesa de que a Psicologia e a Espiritualidade, juntas, ainda têm muito a contribuir para a construção de uma vida humana com mais abundância, felicidade, harmonia, plenitude, realização e significado.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CAPRA, Fritjof. O Tao da Física: um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental. São Paulo: Cultrix, 2006a.

_____________. Pertencendo ao Universo: explorações nas fronteiras da ciência e da espiritualidade. São Paulo: Cultrix, 2006b.

DALAI LAMA. O universo em um átomo: o encontro da ciência com a espiritualidade. Rio de janeiro: Ediouro, 2006.

GROF, Stanislav. Psicologia do Futuro, lições das pesquisas modernas da consciência. Niterói, RJ: Heresis, 2000.

JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Obras completas de C. G. Jung vol. VII/2. Petrópolis, Vozes, 2008.

RINPOCHE, Sogyal. O livro tibetano do viver e do morrer. São Paulo: Talento, Palas Athena, 1999.

WEIL, Pierre. Normose: a patologia da normalidade / Pierre Weil, Jean-Yves Leloup, Roberto Crema. – Campinas, SP: Verus Editora, 2003. 




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